Friday, March 16, 2012
A casa afunda-se sem pressas neste silêncio nada pusilânime. De vez em quando anda alguém lá em cima, ouvem-se os canos a torcer a sua valsa indiferente, seguindo longos caminhos. E eu aqui, atenta ao sangue que me atravessa, ao coração que bate sem a minha vontade. Lá fora a ilusão do dia canta as madrugadas que se esqueceram. Grita a vontade que em nada é minha, de que querendo ou não querendo a vida troça de mim e da minha paz. Esta paz mentirosa, nada súbtil que aflora nos livros já lidos e nas recordações já temidas. Haverá sempre o poeta calão e o poeta sincero que nos amedrontar e fazer florir prosas grosseiras, destiladas em cepticismo. Quem me diz que lá dentro, ao fundo, a porta que bateu na força do vento é se não mais uma quimera do dia-a-dia abrupto e vacilante? Procuro palavras mais crescidas de sentimento, as mesmas do português de antigamente, e não subsisto ao desconsolo. O meu corpo erguido será o mesmo que o meu cadáver, e o dia lá fora brotará novamente, com a minha alma tremente no meu corpo dormente, ou nas suas margens. O humo tragará a minha tristeza e bondade, e os tempos sulcarão o que resistirá da minha recordação. Dói-me viver para me abandonar, dói-me viver na doçura enternecida do amor mais fulminante, sorri-me viver na amargura da sabedoria e da verdade. Sou límpida na minha vontade e isso amolece-me os sonhos, mas aguça-me os sentidos, e sou feliz.
Monday, February 27, 2012
Desfeita a eloquência tão ferozmente traçada de sempre no mesmo coração morno e ruidoso, a valsa pesada sempre nega a compreensão. O teu dia ser a minha noite, e a minha noite ser tão somente as lembranças arredondadas ao aconchego, à solidão. As minhas raras doenças ofuscam as minhas constantes dormências, por vezes. Mas o que me enlouquece é se não esta surdez demente, os dias que passam sempre tão novos de pesar, sempre tão vazios de ti, sempre na distância de nós. És o meu dia, e não ter dias é insconstante, mórbido até. Evito já pensar em ti, evito já lembrar-me do cheiro da tua pele no toque meu, as tuas mãos grandes e dedos munidos de lembranças maiores que as da tua alma. Dói-me como sempre, mas desta vez dói-me de medos, lamentos pegajosos, brilhantes abandonos.
Thursday, February 23, 2012
A luz da paciência já não faz de consoada. Já não comunga ao agrado, ou rompe rotinas pouco sinceras. Desesperado, vejo-te enegrecer a imagem que tens de mim para não poderes relembrar claramente como nos sentíamos. Desapegados, frescos, imunes. Lanças trovoadas de desculpas, lembras-te que estás atrasado para qualquer coisa, evitas-me e evitas-te certamente. Já até eu me evito, e cumpro promessas vazias lançadas em tempos negros, chorosos, calões. Preguiça ou desapego já não sei dizer. Tristeza, consorte.
Tuesday, December 27, 2011
O desconsolo sonolento levanta as hastes novamente e sussurra-me nos lábios meus, teus também, que o ontem morreu finalmente. O meu fraco tímpano no entanto acredita ouvir as notas da mudança, uma certa valsa mecânica e exagerada que sempre retorna em alturas destas, em que o ano morre e em que terminamos nova volta ao astro nosso, quente como as nossas almas começaram 365 dias atrás, também. Esse timbre da esperança, essa crescente confiança em filosofias vagas e tardias, mas sempre bem-vindas. Hoje não quero nada mais, não há se não desejo mais fervente que lapidar brutas consciências e gritantes expectativas de que a nova meta seja mais apaixonada, mais cheia, mais comum e minha. Não sei bem se há um limite no ser que sou, ou no ser humano que vai e se desgraça, e que é o mesmo que eu. Já não sou nem vaidosa, nem humilde, nem desgraçada ou perdida. Talvez um pouco falida ao consolo, falida ao vaivém doloroso da vida que eu já não sei descodificar. Sou uma chama tremida no convés de um navio. Um navio com porto e aconchego. Um navio em casa, porque casa é tudo o que sou. Quero mais, como sempre, mas vou alimentado fábulas que me desgraçam e degolam as vontades. E o meu coração acredita, e acredita, e acredita. Há algo que me faz tropeçar em frente, não em passados, mas a vida passa, e solidifica-me a solidão, esta apaixonada e perdida solidão, a mesma de sempre. Resta-me senão que me deixe levar, e tentar enternecer os passados meus com os futuros tão iguais a sempre. Talvez deixe só desta vez que a rua me leve, hora acima, no relógio da noite, sentindo o meu coração a acender-se novamente.
Monday, October 03, 2011
Encarar estranhas associações como poderosos confrontos de alma. Entender que realizar que me mudei de um ontem para hoje, não significa que todos os ontens se tornaram num hoje comum. Enquanto eu me mudei, ou contornei mil destinos, há quem tenha aceite mil outros, ou os mesmos mil. E não há que me sentir desgostosa perante tal fado, ou que sentir desolação perante estranhas comiserações, ironias, etc. Nada que me sentir saudosista, ou atraiçoada. Apenas triste, na valsa nervosa da vida, perante desconsolos e abandonos, ou esquecimento.
Tuesday, September 20, 2011
Cada Homem é sozinho. Esse Homem replecto ou não de humanidade, que devora a flora e o desumano como construções suas, ou meras deduções. Na corrupção da sua doçura juvenil, floresce, acresce a calmaria, a refutação e o conformismo. Não é do nada que se canta de boca em boca que os Homens são belos enquanto jovens. O crescimento é uma mera confusão logística. É se não o desapego à simplicidade, e o temor aos erros sem rancor ou arrependimento. Por isso já não sou, ou fui sequer alguma vez, jovem. Ou fui criança ou idosa, dependendo do dia da semana ou da presença de coração pesado, cansado. Uns que têm senão falta de juvenilidade pastam aos catorze ventos que a vida é senão o hoje que nasce, mesmo à falta de lusco fusco. Os que não podem abandonar a mocidade entornam nas linhas tortas de desilusão a crença de que na vida não há felicidade, apenas momentos soltos de rústica ventura e ardente bem-aventurança. Talvez a criança tenha estranha razão. Os sorrisos bandidos, os sonhos melados, os desassossegos ferventes, brincam com as almas cansadas. Mas não são tão más como as eternas certezas perdidas e o sossego sem luta. Assim, o Homem ou cresce ou não cresce. E quase nunca se apercebe que no fim é isso que somente sobra; a tremente luta que denominar estados ou fases de vidas na prosa mais comum, mais fútil, confusa e serena.
Thursday, September 08, 2011
A paixão por algo fictício é surreal. Aos poucos e poucos no calor que aperta a garganta começa também a crescer uma certa sensibilidade gasta e rude. Sentir que algo morre é drástico, seja na realidade nossa ou na de outros. Não falo no sentido literário ou cinemático, ou narrativo da ficção. Falo na parte intríseca, da sua totalidade como perda. Saber que essa perda não só me pertence a mim, mas ao mundo todo, mesmo quando há quase certeza de que a minha doerá sempre mais. E pesa como perder alguém, um familiar, um amigo. Escrevo agora com a secura exacta da dor. O saudosismo de quando ainda havia tanto para descobrir, mesmo a mais mórbida das impossibilidades. E a beleza do fictício é o quanto de real ele tem em cada alma, em cada selvajaria, em cada magia. Como diria Albus, aqueles que nos amam, nunca nos abandonam realmente. Incessante esta farta implenitude, este desagrado em entender o porquê. O porquê de sentir o cessar de algo fictício como a morte de um ente querido. Tão real, tão triste, tão só.
Wednesday, September 07, 2011
Estar totalmente feliz com as decisões tomadas não faz parte da rotina humana. Há muito menos de logística na aceitação de um destino do que na aceitação de momentos que não poderiam nunca ser evitados. Como uma corrente que leva o peixe salmonídeo mais fraco, por mais forte que seja a sua vontade de lutar contra ela. Mas no fundo sabe ainda melhor chegar à conclusão que não foi a mente, esse orgão negro de luto e sarcasmo a escolhê-lo ou ao outro, mas puramente o coração. Essa forte muralha de espuma que nos faz olhar obedientes para o céu, com um batimento cardíaco ritmado e feliz. Estranho ainda assim que eu nesta minha entrega sôfrega e sincera, seja virada ao ritmo das incertezas certas, do peso no ventre riscado ao olhar luminoso de quem realmente ama. E o meu cansaço vai abastecendo esse orgulho vívido do amanhã que vai surgir nos braços dele, que me bebe e segue, e estremece ao mais pequeno suspiro. A beleza é pura e enfranquece, e desenha abismos debaixo de mim, enquanto entorna arco-íris ao redor do meu próprio céu.
Saturday, July 09, 2011
Nada há como o desembaraço da esperança. A leveza da despreocupação que faz sorrir após a tormenta, ou comiseração. É não só relaxamento muscular, como música orgânica no coração. Na falta de palavras justas, é se não um favor à vida levada em falsos favores, em control de sentimentos, em sensaboronas tentativas, crescidas de saudade, de tentar fazer do que é preocupante, emocionante. Faz sorrir de facto perante aquela explosão de que mesmo as coisas dolorosas nada importam quando se tem um coração que bate saudavelmente, ou semelhante. Que a beleza da dor ajuda até a saber viver mais, melhor. E é-se mais esperançoso quando se sabe ser jocoso perante a adversidade, quando se sabe que nem tudo será fácil amanhã nem mesmo no momento seguinte. Dói-me viver porque sei melhor. Mas esta emoção nada comedida, faz-me ser o animal mais profusamente e frontalmente feliz. Feliz na pureza da ventura, não apenas na estranha pureza da ocasião.
Sunday, June 19, 2011
Em breve aprendi que há lições, morais, escolas, que nunca cessam. Doem como a luz que se acende e queima momentaneamente os olhos e a alma. Sorvem as memórias infantis e crescidas e doem também na saudade. A beleza já não adormece essa dor maligna e simples, só de peso em peito morno. Resta se não encolher os ombros e alcançar certezas. Resta se não entender que uns ficam, outros não voltam. Outros que ou foram ou nunca foram. Choro, somente às vezes, a minha bondade. Ou outras vezes que haja maldades que me façam entender que sou algo outra que minha. A beleza é vã, quando não há esforço. Quando é a resistência à dor que evita a decência. Falo de ti, não pela mágoa que te tenho, mas pelo tempo que começo sentir ter perdido por ti. Quem perde não é ninguém. Talvez só apenas eu, que teclo a mesma batida uma e outra e outra vez como se as rotas tomadas mudassem com os tempos e com as lições, morais, escolas. É triste apenas porque as filosofias existem e a tristeza tropeça-me na sua verdade fatalista, cruamente real.
Friday, January 07, 2011
Saber ter de passar o resto da vida longe de ti, como uma vivência minha, sem a menor possibilidade de te poder dar nada de mim, destas rotinas, é ingrato, e dói-me. Este saudosismo enclausurado nas paredes tragadas de ódio, forçam-me a acreditar que me esquecerás, ou que se não, me irás doer para o resto do sempre. E eu nem quero um nem outro, esta falta de oportunidade de alterar o que quer que seja trinca-me a vontade, rasga-me a seriedade nos pedaços que já nem me lembro se alguma vez fomos. Eu quero-te dar bocados de mim, do que eu vivo e sou, e não estar condenada a esta coisa que existe que é mais poderosa que tudo, mas que não pode ser físico, não pode ser presença. Vai passar, ou esconder-se em outras coisas que sentir, mas volta sempre. E és tu somente que eu quero que possa estar sempre aqui, sem partir. Vem viver-me, por favor, não digas adeus outra vez.
Tuesday, December 21, 2010
Depois de momentos passados numa felicidade quase automática, em meros momentos de êxtase, esquece-se o que é um coração negro de escuridão, ou o facilistimo que se alcança depois de viver a vida toda nessa condição. Quando surge novamente a solidão, a solidão robusta e disforme, não a momentânea, a solidão que surge logo após a companhia, não há nada que faça sentido, e a escuridão de um quarto é a única coisa capaz de insuficientemente acalmar o coração que gela aos tropeções. Não há saida. E nem tenho mais palavras. Tenho falta de ânimo na garganta, e choro na vontade.
Monday, November 01, 2010
Serei assim tão dada a esquecimento? Serei de fácil descartar, de fácil largar, de fácil sucumbir? Parece-me ontem, eu tão inata a deslumbrar o mundo, com a minha pequenez, a minha solidão, a minha estranha comoção à vida menina. E hoje estou mais só que ontem, porque apenas a única pessoa que sinto, está já dentro de mim, a respirar por mim, a martelar-me o coração e a reluzir-me os olhos. Mas é este cansaço, pela minha fé que de inabalável se encontra por vezes tão embalada em pequena e grande emoção. E abalada finalmente pelo dor do cansaço. Afinal nem sempre há coisas tão certas assim. Só e apenas que eu amo viver, e que viver me é ao mesmo tempo virtude e dor. De me rolar as lágrimas, e as enrolar no corpo sujo das vivências pesadas, intrínsecas, fatais. E olho para trás, releio tudo o que de escrever eu fui, e vi que em tantos largos anos a melhor qualidade nunca me abandonou; esta fé que tenho em deslumbrar um mundo tão apegado a mim, e eu tão menina ainda e sempre, para sempre deslumbrantemente apegada a ele.
Saturday, September 18, 2010
E quando eu olho em perspectiva para trás, e relembro, dói-me a ferida curada. Dói-me que tenha já passado o que tanto me mutilou, o quanto me estremeceu o coração, e o quanto hoje, por vezes, na falta de cuidado e de lembrança, parece já nem ter feito qualquer diferença. E que fazer quando há lembraça? Talvez brindar com um copo sujo, a insolência, a transição. A frieza com que o corpo cura a mente, e a deixa respirar. Quando o coração, ainda ressacado, geme de medos e choque.
E não é saudosismo, é apenas revolta. Pela felicidade que me trago, e pela tristeza que ainda assim assola o meu coração que fora tempestade.
E não é saudosismo, é apenas revolta. Pela felicidade que me trago, e pela tristeza que ainda assim assola o meu coração que fora tempestade.
Thursday, September 09, 2010
É tão ingrata a destreza de me sentir tão só, quando sinto que me amas tanto assim. Tão inútil a minha capacidade de o sentir, quando os destroços da minha meninice, da minha suprema facilidade com que me perco no passado meu, se evaporam e me alimentam. Tão também asquerosa a maneira como me diverte o eu saber ser tão capaz assim do negrume humano, e da tristeza aguçada. Este saudosismo precoce em mim, corrói de nós o que nunca fomos, e fortalece-nos. Mas dói-me a distância física, e revolto-me contra a minha fraqueza em mudar o facto, o que acontece.
Sinto essa mesma revolta a picotar-me o estômago, e o nervosismo que me salienta as ambições. Quero-te, e quero-te ainda mais hoje e agora.
Sinto essa mesma revolta a picotar-me o estômago, e o nervosismo que me salienta as ambições. Quero-te, e quero-te ainda mais hoje e agora.
Wednesday, September 08, 2010
E é nestes momentos, não somente mas também, que vejo a magnitude do que se pode sofrer por alguém, do que se pode crescer por alguém, do quando se pode inevitávelmente morrer por alguém. Quando partes assim, e na garganta mesmo que imbecil fica o sabor azedado do medo que não voltes para mim. Que os acasos amarguem a tua vontade, ou que a vida nos complique os sentidos e as rotinas. Por isso me custa ver-te partir, e queira esconder fotografias com promessas no verso, ou dar-te livros que sei que sempre te levarão a mim. O saber, tão contente e conformado, de que vamos ser o braço direito do outro para o resto da vida; o braço mais quente do latejar morno do coração que se arregaça com o teu sorriso, o teu olhar, tão teu, como de tão teu algo poderia ser.
E o teu cheiro que me arredonda as lágrimas saudosas, e me persegue nos desejos, nas pontas dos dedos, os cabelos, e a cama onde me abraçaste que fica tão fria sem o peso nosso, sem a tua amizade efervescente, e a tua protecção tão sedenta.
Tenho já sede de ti.
E o teu cheiro que me arredonda as lágrimas saudosas, e me persegue nos desejos, nas pontas dos dedos, os cabelos, e a cama onde me abraçaste que fica tão fria sem o peso nosso, sem a tua amizade efervescente, e a tua protecção tão sedenta.
Tenho já sede de ti.
Saturday, August 28, 2010
os meus tantos mundos paralelos, daquilo que já fui e se amarratou, enlouquecem-me, desiludem-me e põe-me acima de tudo sabedora desta tristeza amarga e sedenta. quero apenas chegar mais longe, e poder sentir compaixão e bondade por quem ergueu bandeiras de guerra no meu peito sempre tão cerrado. apenas quero que me demonstrem fazer sentido, em retorno, mesmo quando não faz. mas o ser humano não muda. matamos a nossa casa, matamos o outro, matamos a família, matamo-nos a nós; já ninguém morre por amor. e é isso que é acima de tudo triste; a imaculada bondade já não brindar a honra humana.
apesar de não querer cessar isto que sou, também nunca o conseguiria. mas é a minha maldição; sentir amor pelas pessoas que passam a meu lado e não me vêem, tendo esta revolta semeada mesmo sabendo que estou condenada. e estes mares que flangelam o meu corpo, coração e olhos, tornam-se naquele conformismo que sempre blasfemei. E é também por isso que sei que não existem muitas pessoas como eu; amaldiçoadas de bondade, de revolta feliz, mas tristes por natureza.
e esta sabedoria rancorosa de choros entalados é nada mais que isso. uma praga brilhante, que as pessoas não compreendem. a bondade não cabe já em ninguém, e o mundo chora, como eu.
apesar de não querer cessar isto que sou, também nunca o conseguiria. mas é a minha maldição; sentir amor pelas pessoas que passam a meu lado e não me vêem, tendo esta revolta semeada mesmo sabendo que estou condenada. e estes mares que flangelam o meu corpo, coração e olhos, tornam-se naquele conformismo que sempre blasfemei. E é também por isso que sei que não existem muitas pessoas como eu; amaldiçoadas de bondade, de revolta feliz, mas tristes por natureza.
e esta sabedoria rancorosa de choros entalados é nada mais que isso. uma praga brilhante, que as pessoas não compreendem. a bondade não cabe já em ninguém, e o mundo chora, como eu.
Monday, August 23, 2010
E esta morte vincada no peito, que se torna vida nos medos soterrados. Estas lembranças tão ardentes que tenho, o conformismo da fé, porque a vida é ter apenas a loucura da lembrança, e a fraqueza da esperança. Mas a morte é não ter, e quando a dor colapsa, é impulsionada pela a revolta da aceitação. E já não somos o mesmo, quando os adeus têm de ser largados aos ventos que nem sequer pertencem aqui. As ruas continuam calcadas, as vidas aprisionadas na pressa. Mas o coração latejado, o orgão morno, sua tristeza, e dói, porque até quando dói, é belo. E o saudosismo, que todos os povos sentem, é tão somente português. Português na sua altura, no seu cheiro, nas suas mãos grandes e na nossa alma tão escura sem si. E perder não só quem se ama, mas quem tão somente se ama, o amor de uma vida, rebenta-me. E imagino perder-lo a ele. E imagino o que poderias dizer na tua morte, no teu largar. And I thank whatever, whatever gods maybe. A diferença será para o resto da vida. E sinto amor. Porque sei quem te amava.
Monday, July 26, 2010
E aos poucos sinto a morrer em mim aquela espécie de memórias às quais chamo memórias de ocasião. Aquelas que em certa altura aqueceram, mas onde hoje, no pensamento do passado, se encontram demasiadas falhas, demasiados calafrios para serem denominadas com saudades. A tristeza recai sequer nisso, de aos poucos as memórias se tornarem fungos luxuosos dos quais a multidão alheia se alimenta. A mesma multidão que no fundo os semeia. Aquela mesma multidão que em certos espectros temporais foi fantasma da verdade, relinchava meias mentiras à minha vida, e nela coloria metáforas vergonhosas de tanta miséria.
E aos poucos esse passado vai-se tornando num passado morto; a cor da mentira torna-se na certeza de que hoje, indubitavelmente menos sábia, contudo menos dormente, me torno conformada nas teorias que não tenho, aquelas que passo a vida a tentar derrotar.
É inutilmente fácil criar outros absolutos que não nós, é fácil lapidar ideais e torná-los numa benção. Como é fácil condenar, duvidar e, bem, matar.
Fui morta vezes sem conta pela mentiras dos outros, e hoje não sei se serei sequer a sombra do que os outros viram. Mas sei contudo que estou mais gorda do vão das coisas por engolir. Aquelas que me enchem os olhos de brilho, de fatalidades, de exaustão de viver a vida inteira.
E aos poucos esse passado vai-se tornando num passado morto; a cor da mentira torna-se na certeza de que hoje, indubitavelmente menos sábia, contudo menos dormente, me torno conformada nas teorias que não tenho, aquelas que passo a vida a tentar derrotar.
É inutilmente fácil criar outros absolutos que não nós, é fácil lapidar ideais e torná-los numa benção. Como é fácil condenar, duvidar e, bem, matar.
Fui morta vezes sem conta pela mentiras dos outros, e hoje não sei se serei sequer a sombra do que os outros viram. Mas sei contudo que estou mais gorda do vão das coisas por engolir. Aquelas que me enchem os olhos de brilho, de fatalidades, de exaustão de viver a vida inteira.
Wednesday, July 21, 2010
Fecho-me na escuridão encriptada do abandono, da morte, da não-existência. Há vulgaridade nos sonhos que tenho, pois eles não são menos nem mais que os sonhos do mundo, e dos outros. Ser-se somente arquitecto dos próprios sonhos, enclausura de certa forma a alma. Com a cabeça sufocada em camas de dossel, os limites que se põe nas paisagens que a mente cria, estilhaçam a vontade de viver do sonho, e aos poucos a vontade de velar por ele. E assim, o querer, à sua semelhança perde o sentido, e estagna no longíquo do sonho e da sonolência.
A minha veneração da vida com timidez, é também fascínio pela morte. O sonho vem somente abalar a realidade devassa, estes passos dados em redor de escadotes em circos de portas mal fechadas. Sonhar tornou-se banal, na vertigem de uma sociedade que não sabe distinguir a força do sonho, e a força do poder. Para outros sonhar é perda de tempo; ler jornais, participar em obras de caridade, filantropismo, e rituais saudáveis fazem mais sentido. E em neles nada há de sonhos.
E em mim nada há mais que sonho, em tons pastel e creme dourado. Na minha própria tontura da realidade, quando acordo, sou somente a ilusão que o meu próprio sonho não realizado escolheu de mim. Só os sonhos perdidos, nunca deixam de ser sonhos.
A minha veneração da vida com timidez, é também fascínio pela morte. O sonho vem somente abalar a realidade devassa, estes passos dados em redor de escadotes em circos de portas mal fechadas. Sonhar tornou-se banal, na vertigem de uma sociedade que não sabe distinguir a força do sonho, e a força do poder. Para outros sonhar é perda de tempo; ler jornais, participar em obras de caridade, filantropismo, e rituais saudáveis fazem mais sentido. E em neles nada há de sonhos.
E em mim nada há mais que sonho, em tons pastel e creme dourado. Na minha própria tontura da realidade, quando acordo, sou somente a ilusão que o meu próprio sonho não realizado escolheu de mim. Só os sonhos perdidos, nunca deixam de ser sonhos.
Sunday, July 18, 2010
Aquelas ruas caiadas do pó que o sol derrama, e o sol queimado, a desculpar a indecência das sombras. Lembro-me do sabor do ar nas minhas pálpebras, a humidade meio cheia, meio vazia, e o bater terno do meu coração, por saber que apesar de não ser casa, marquei.
Há algo sobre egocentrismo em mim quando debato esta fúria saudosista nos confins da minha alma, há um crescente ardor nos olhos por sentir a mortalidade dentro das entranhas, o mesmo ardor que o meu físico contesta, e que me faz tossir argumentos de que a imbecilidade é ingrata, tanto quanto a fé ou o destino.
Saber que o dia pesa mais que a noite, pela constante mutação das rotinas humanas, devassas e anárquicas, é constrangedor no sentido em que algo me tira o sono, e que isso é literalmente humano. Não o digo porém por falta de fé no humano; talvez me desgrace saber que os créditos que tenho em argumentação impugnem permanentemente as minhas fés. Mas de noite o mundo dorme, e eu no meu noto que, aparte disso, os dias são iguais às noites, quase tão orgânicas quanto as rotinas, quantos as mutações, quanto o humano.
E vou tentando demonstrar ao meu próprio corpo que não sou se não mais do mesmo; o meu mundo parte-se em esferas ridículas, em rituais recortados, e sou sugada por um mesmo rol de diários semelhantes. Sou mortal, e isso enfraquece-me a alma. Mesmo depois de todos estes capítulos semi abertos, quase fechados, os meus sonhos escalam as minhas bossas, vão sendo sonhos para além das opções, das leituras, das escrituras. Mesmo depois do fim de algo, do passado irreparável, vem a morte, e vem o leito, no qual terei de me deitar, mesmo sem ter sono.
Há algo sobre egocentrismo em mim quando debato esta fúria saudosista nos confins da minha alma, há um crescente ardor nos olhos por sentir a mortalidade dentro das entranhas, o mesmo ardor que o meu físico contesta, e que me faz tossir argumentos de que a imbecilidade é ingrata, tanto quanto a fé ou o destino.
Saber que o dia pesa mais que a noite, pela constante mutação das rotinas humanas, devassas e anárquicas, é constrangedor no sentido em que algo me tira o sono, e que isso é literalmente humano. Não o digo porém por falta de fé no humano; talvez me desgrace saber que os créditos que tenho em argumentação impugnem permanentemente as minhas fés. Mas de noite o mundo dorme, e eu no meu noto que, aparte disso, os dias são iguais às noites, quase tão orgânicas quanto as rotinas, quantos as mutações, quanto o humano.
E vou tentando demonstrar ao meu próprio corpo que não sou se não mais do mesmo; o meu mundo parte-se em esferas ridículas, em rituais recortados, e sou sugada por um mesmo rol de diários semelhantes. Sou mortal, e isso enfraquece-me a alma. Mesmo depois de todos estes capítulos semi abertos, quase fechados, os meus sonhos escalam as minhas bossas, vão sendo sonhos para além das opções, das leituras, das escrituras. Mesmo depois do fim de algo, do passado irreparável, vem a morte, e vem o leito, no qual terei de me deitar, mesmo sem ter sono.
Thursday, June 24, 2010
Mentalmente comparei-te a um copo de água, e senti pânico. Tão somente um quente crescente a subir, a calar-me a força que somei uns dias, e esgotei em tantos outros. Tu és a água que cala a minha sede; estranho como nem os livros são capazes de calar tão fielmente, furazmente, esta fuga de sabedoria, esta necessidade de querer mais, esta febril saudade do meu universo infantil, e perversamente imaginário. És tu, orgulha-te, quem me faz as noites mais quentes terem pirilampos, e quem no meu pânico, é água num copo de água. Realiza-me os sonhos, foi tão somente o que te pedi. Mas não é bem isso que eu quero. Quero somente que fiques assim, comigo, no corpo dado sem perdão, nos passos comprimidos ao redor da tua protecção. Porque a pouco e pouco os meus sonhos calam-se, e iniciam a sua metamorfose num corpo grande, protector. Aos poucos tornas-te tu no meu sonho, e eu não temo mais, nem me importo, de mudar todos por ti. Porque és tu quem me faz trazer este sorriso. És quem me faz cantar baixinho, és quem me faz dançar por dentro, e querer somente a tua alma a dançar comigo.
Por isso, és tu a minha água no copo à minha frente. És tu a minha sede. Selvajaria. És tu as minhas palavras.
Por isso, és tu a minha água no copo à minha frente. És tu a minha sede. Selvajaria. És tu as minhas palavras.
Tuesday, May 25, 2010
viver no sufoco do sonho por realizar; no temer do impossível, do enclausurado, do comparável. tenho aldeias de sonhos dentro de mim, da ambição ridicularizada pelo calor do dia, das vozes dos fantasmas que imaculam os medos de infância de falsas modéstias. o mundo dói-se de mentiras e obstáculos, e somam-se as minhas visões de futuros que quero conseguir construir, mas que a morte só destrói. os suspiros completam-me no que sou; o coração vai martelando a fugaz vida que tenho, mas que foge de mim aos encontrões, pela qualidade que subtraio mais e mais, pelo valor que perco, a cada novo dia asqueroso de melodias físicas, de centímetros grosseiros, e perda de neurónios. esta calmaria é somente a revolta do mundo.
Tuesday, April 13, 2010
Este nó na garganta, tão apertado dos rituais ridículos e dos sonhos pisados de sangue. Sonhos, essa palavra una de impossibilidades e fraquezas, o sinónimo de fantasia e do impossível. O sonho e a ambição congelados, fazem-me sentir uma imbecil de palavras estudadas; o que escrevo ultrapassa o melhor de mim, e coloca-me num rio de tristezas e de somáticas obscuras. O corpo que dói em filosofia, contrasta com a mente que dói com relativa agudeza, de cansaço e desilusão. Não tenho mais sonhos que perder, e por isso perco-me nesta valsa diária de surdez, mudez e ceguez dos sonhos dos outros, e do ridículo que é querê-los para mim. Dói-me o coração, que lateja de depressão em vinte anos.
Thursday, April 08, 2010
Quando se aprende a viver sem, o conformismo já não é uma peça pesada. Consegue-se entender os motivos de não se estar presente como se víssemos de fora; e assim deixa de doer tanto e de se exigir tanto. Torna-se ridículo deixar de ser ciumento, quando sê-lo o é ainda mais. A amizade não é posse, mas ciúme é orgânico. É por isso que há pessoas que o têm de mais e outras que o têm de menos. E não é fácil nem entendê-lo, nem deixar de encontrar defeitos ou num, ou noutro. O que é realmente difícil é deixarmos de querer para nós um pouco de reciprocidade.
Mas de que falo? Viver num mundo em que gostar de todos é defeito, é como viver num mundo em que os etês não existem. O que as pessoas não sabem é que escrever não é dádiva de um deus, é crença de unicidade. E o que ninguém sabe é que os etês existem de facto, é só saber onde procurar.
O estoicismo é acessível a todos, só a fé não o é.
Mas de que falo? Viver num mundo em que gostar de todos é defeito, é como viver num mundo em que os etês não existem. O que as pessoas não sabem é que escrever não é dádiva de um deus, é crença de unicidade. E o que ninguém sabe é que os etês existem de facto, é só saber onde procurar.
O estoicismo é acessível a todos, só a fé não o é.
Sunday, April 04, 2010
Virada ao universo das possibilidades, é o das impossibilidades que se atrai a mim, sugando-me. Os sonhos começam a revirar-se, e nessa reviravolta, perco a vontade de encontrar poder para lutar por eles. É uma situação azeda, penso. Não é o que sou; nunca fui feita de vertigens ligeiras, mas das negras, contudo nunca deixei de sonhar, nem nunca fui de conformismos. No entanto o vazio que sinto sobeja e acresce, e eu decrescendo em vontades, perco-me de olhos abertos, na órbita de aceitação que fui tecendo sem me aperceber. E hoje sou isto, este cais de perguntas antigas e efémeras, diante de tudo o que fui e que hoje não se dedilha em jantares combinados, em serões mais ou menos quentes, mais ou menos pretendedores. É isto assim tudo aquilo que posso ser.
Não sei o que quero, e no que julgo querer há uma voz que se grita e diz estridentemente ser impossível. Dói-me os ouvidos como a alma azedada. Já não sei mais o que aquece o coração.
O abismo retornou.
Não sei o que quero, e no que julgo querer há uma voz que se grita e diz estridentemente ser impossível. Dói-me os ouvidos como a alma azedada. Já não sei mais o que aquece o coração.
O abismo retornou.
Saturday, March 27, 2010
Dizendo que eu sei ser tudo de mim, quando estou contigo, era simplificar as coisas no seu estado mais leve. A verdade é que não me apercebendo que sou sequer uma pessoa contigo, faz-me crer que já és tão parte de mim, como é a infância, uma casa no mar, e os sonhos realizados. As nódoas das auroras de ontem, já não estão para ficar, quando estou contigo. A minha mão dada à tua, é somente o retrato nosso, porque não darmos as mãos significa que o quadro está em sombra, e nós enraizados nisto tão nosso. Então damos as mãos, gargalhamos, e ascendemos do fundo de nós; o eterno é nostálgico, como se tivessemos já vivido o resto da vida. Não pré-visualizamos já, tememos que o dia seja pouco tempo que ter as mãos enroscadas uma na outra; e adormecemo-nos com elas dadas, sem olhar a distúrbios e a deliquências. E o eu dormir no teu colo, afoga-me nesta tristeza tão feliz, ao realizar que foi tão somente o que sempre fiz, ontem, como o faço hoje. Sussuramos iras descontroladas, as do querer, porque quem tem, quer sempre mais. Incontrolávelmente, isso é o melhor que já tive.
Saturday, March 06, 2010
do irascível
Faz impressão, como uma dor que incomoda, que as coisas demorem a sarar, que as vidas não se mudem assim, como quando se quer limonada em vez de doce de fruta. como as revoltas são tão asquerosas quanto a guerra aflorada em peito morno. que o que se diz, não seja o que se faça, e que assim, nem sequer é o mais correcto.
que os ataques insólitos às muralhas dos outros, sejam antros de sexo grosseiro para uns, sejam porto seguro para outros. e que no fim não se acha diferença entre um e outro, porque a vida ergue-se para além disso, para além das bandeiras ontem pregadas, contra as asas de cada deus. e assim as guerras são tão nobres quanto a paz; as diferenças tornam-se semelhanças, e o bem não é melhor que o mal.
porque não há já quem defenda mais as suas causas com a justiça do impensável, com a força da forca, com a espada dos rios que afloram a norte e não a sul. são as poucas palavras que os heróis já nem sabem empunhar, que os assassinos já não sabem violar, que as mães já nem tentam criar. dar vida já nem puro se torna, quando destruímos não só tudo aquilo em que acreditamos, mas também os sonhos dos outros.
quando uma simples sombra de cobre redondo se torna o poder do mundo. e as músicas, as notas musicais são tudo o que sobra para emocionar o outro. o silêncio já não é espectral.
deve-me doer só a mim, que vejo tudo em retalhos derramados, não perdoados, salientes de causas justas e causas perdidas, doentes de maldição, dementes de escravidão.
e sermos realistas é a causa nobre? porque as pessoas loucas, são as melhores que há. e não serão as tristes também? que vêem o quanto se ama um mundo perdido; que sabem o que é empunhar rostos rotos, e espadas partidas. serão também as melhores que há.
que os ataques insólitos às muralhas dos outros, sejam antros de sexo grosseiro para uns, sejam porto seguro para outros. e que no fim não se acha diferença entre um e outro, porque a vida ergue-se para além disso, para além das bandeiras ontem pregadas, contra as asas de cada deus. e assim as guerras são tão nobres quanto a paz; as diferenças tornam-se semelhanças, e o bem não é melhor que o mal.
porque não há já quem defenda mais as suas causas com a justiça do impensável, com a força da forca, com a espada dos rios que afloram a norte e não a sul. são as poucas palavras que os heróis já nem sabem empunhar, que os assassinos já não sabem violar, que as mães já nem tentam criar. dar vida já nem puro se torna, quando destruímos não só tudo aquilo em que acreditamos, mas também os sonhos dos outros.
quando uma simples sombra de cobre redondo se torna o poder do mundo. e as músicas, as notas musicais são tudo o que sobra para emocionar o outro. o silêncio já não é espectral.
deve-me doer só a mim, que vejo tudo em retalhos derramados, não perdoados, salientes de causas justas e causas perdidas, doentes de maldição, dementes de escravidão.
e sermos realistas é a causa nobre? porque as pessoas loucas, são as melhores que há. e não serão as tristes também? que vêem o quanto se ama um mundo perdido; que sabem o que é empunhar rostos rotos, e espadas partidas. serão também as melhores que há.
Monday, January 18, 2010
É isto. É esta sensação imperdível que a vida embala, e me enternece. Sensibilizada deixo-me arrastar nos contornos frios e latejantes, pegajosos de vida e da paixão da morte. Esta agonia que me embriaga, é sempre a mesma. O avesso da vida, brusco e transparente, traz sempre estes abismos, sempre os mesmos passados, não importa o quanto alguém me completa, ou quão feliz me sinta. O inverno que se esvanece não deixa alterar a tristeza de que o ser humano é fatalista, e assim fatalmente falível. E é triste, do fundo do meu ser terrificamente melancólico, que as batidas que o meu corpo martela, e que desenha a minha banda sonora, sejam assim desgastantes e saudosistas.
Terror este que é o estar assim, feliz, mas saber que no fundo de tudo serei sempre uma pessoa perseguida pelo meu coração tão cheio de vida, tão cheio de sabedoria triste. E que assim sendo terei sempre o olhar virado ao coração dos outros, aos gestos que vejo e me apaixonam, os estranhos que me emocionam, quando os observo e consigo vê-los tão fulgentes, num compasso mais lento. E é tão somente isso que me persegue. Este apreço tão grande de portar uma maldição assim. De sofrer com a vida dos outros, e de me saber de todos, de tal forma que nada chega para que consiga ser minha. E arde-me viver assim, e dói-me não saber ser outra. E é bom, porque sei que ao viver pelo coração, quem vive por outra coisa não sabe viver. E eu ao não saber viver sempre feliz, vivo acima da vida, e vivo, mesmo que na quietude, num raiar de sangue, de brilho e de luz.
Sou emocionalmente nítida. Os contornos severos da minha psicanálise tristonha, são para mim o sorriso de quem sabe mais. Nem imaginam o quanto isso me faz realmente sorrir.
Terror este que é o estar assim, feliz, mas saber que no fundo de tudo serei sempre uma pessoa perseguida pelo meu coração tão cheio de vida, tão cheio de sabedoria triste. E que assim sendo terei sempre o olhar virado ao coração dos outros, aos gestos que vejo e me apaixonam, os estranhos que me emocionam, quando os observo e consigo vê-los tão fulgentes, num compasso mais lento. E é tão somente isso que me persegue. Este apreço tão grande de portar uma maldição assim. De sofrer com a vida dos outros, e de me saber de todos, de tal forma que nada chega para que consiga ser minha. E arde-me viver assim, e dói-me não saber ser outra. E é bom, porque sei que ao viver pelo coração, quem vive por outra coisa não sabe viver. E eu ao não saber viver sempre feliz, vivo acima da vida, e vivo, mesmo que na quietude, num raiar de sangue, de brilho e de luz.
Sou emocionalmente nítida. Os contornos severos da minha psicanálise tristonha, são para mim o sorriso de quem sabe mais. Nem imaginam o quanto isso me faz realmente sorrir.
Thursday, January 14, 2010
Isso, desenha o teu corpo no meu, através desse abraço cerrado, cerrado de si e cerrado de desejo. Contorna as tuas mãos nas minhas, delineia o corpo doente, teu, meu. Sorri; as covas que fazes no olhar cansado, penetrado de desilusões e expectativas, de surpresa e gratidão, são também elas minhas. Amo o teu olhar sorridente, não gargalhado. A paz que acode, já tão de dias sufocados e medrosos. Calados dos estilhaços das guerras travadas ao largo do coração dado. Tu sabes os meus sofrimentos, começas a entendê-los como ao teu próprio nascer, aos passos dados. Fazes-me renascer naquilo que antevi; és o meu cheiro a eternidade. Tocas-me e sinto-te a morrer comigo, ao meu lado, num compasso nosso. Que irás perder-te comigo, na longevidade, nos medos precoces e temporões, nas coragens que virão. E que são desmesuradas também. Deixa-me dizê-lo; não te perderás de mim. E o que temos não é cumplicidade, é entendimento das raízes, das veias; no fluxo sanguíneo que se sente no abraço que desenha o meu corpo no teu. E aquilo que me ensinas é que não há forma de saber se é certo, mas que quem não arrisca quedar, não voará. Te garanto que voo já.
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