Agora faço eu as horas, agora passo eu os meus momentos de cuidado num cantinho entre tudo o que deixei e o compromisso que este ano aspira a ser.
Detesto as letras que escorrem de mim, e de repente já não sei se caibo em mim se só me tento abandonar. Se esta correria é só a pressa de tudo o que e novo e que sofre espamos de pequenez e grandez de vez em quando; do sofrimento de saber querer voltar e o não poder fazer - não porque isso e impossível mas porque o é só para mim, não posso sequer pensar em fazê-lo (o rol de opções é reduzido e essa não é certamente uma delas).
Se em Lisboa (o som é agora distante, a memória teima em nela repousar e sentir um puxão de saudade) as palavras eram mais pesadas que o calor de um casaco-de-peles em pleno agosto lusitano então aqui, nesta meia lua de rostos desconhecidos de não me saberem quem sou só o que sou, muito menos consigo tirar esta melancolia de cima de mim.
É só mais uma aventura, é só mais um episódio ou um leque cheio deles, longe de tudo o que fez de mim quem sou; esta personagem que teima em trazer a escuridão, enquanto o gesto, a mão, o corpo se reduzem à minha pequenez - eu sou tão pequenina e amo tanto sê-lo que o o ambiciono para o resto da vida.
Sempre que reconheço em mim cada dor do passado, cada gesto que já fiz ou gesto que teima em permanecer, sinto o corpo gelado de toda a saudade de que sou feita em cada poro da minha pele, em olhares que me desfazem o desdém e me deixam recordar descansada. Por vezes desato a sentir-me desconfortável, cada vez que parece que o tempo é mais infinito do que já foi em dezassete anos, em cada percepção de que o tempo que ainda falta correr é ainda muito, demasiado. [...]
Estou longe e tenho medo. [...] Medo de no fim disto tudo não ser capaz de sentir o que deixei, medo de não caber na minha própria alma portuguesa; os interiores gelados que sabia serem uma prioridade no meio de erros e mais erros que eu não soube desdenhar.
As saudades daquilo que nunca tive, e que sei ainda as ter, não as sinto mais, não aqui. Porque estou em solo inimigo e o som dos meus passos contam como o crescimento é uma desilusão, ou emerge como minas em plena guerra do coração - e eu sei perfeitamente o que é sentir o coração perfurado por dores invisíveis ou escaranfunchado por factos que não são mais que míseras lamentações.
É tão difícil saber o que sentir aqui, quando as circunstâncias são tão diferentes ainda que havendo sempre algo que se demonstra assustadoramente semelhante. Tenho agora em mim o sentimento que tentei libertar em Portugal - aquele do perdão, sinceridade e medo de perder qualquer coisa. O sentimento de que alguém se ajoelha mais e mais sobre o que temos cá dentro de nós, até sabermos que o que resta é uma paixão enorme que não sabemos dar de volta. O medo de dar tudo o que se pode dar; porque os joelhos vão dobrar mais e mais e há-de sobrar a paixão. Quando não há certezas, mas há o cuidao nas palavras ditas, nos significados, nos olhares e na sonoridade de cada letra.
Quando as saudades não são mais invisíveis, quando corroem e sentimos o coração martelar sangue com intensidade, os membros doem, respiramos cansaço e sentimos não caber em lado nenhum senão na solidão, em quartos fechados onde portas são a única segurança por um ano de abandono.