Há mágoas íntimas que não sabemos distinguir, por o que contêm de subtil e de infiltrado, se são da alma ou do corpo, se são o mal-estar de se estar sentindo a futilidade da vida, se são a má disposição que vem de qualquer abismo orgânico - estômago, fígado ou cérebro. Quantas vezes se me tolda a consciência vulgar de mim mesmo, um sedimento torvo de estagnação inquieta! Quantas vezes me dói existir, numa náusea a tal ponto incerta que não sei distinguir se é um tédio, se um prenúncio de vómito! Quantas vezes...
Minha alma está hoje triste até ao corpo. Todo eu me doo, memória, olhos e braços. Há como que um reumatismo em tudo quanto sou. Não me influi no ser a clareza límpida do dia, céu de grande azul puro, maré alta parada de luz difusa. Não me abranda nada o leve sopro fresco, outonal como se o estio não esquecesse, com que o ar tem personalidade. Nada me é nada. Estou triste, nas não com uma tristeza definida, nem sequer com uma tristeza indefinida. Estou triste ali fora, na rua juncada de caixotes.
Estas expressões não traduzem exactamente o que sinto porque sem dúvida nada pode traduzir exactamente o que alguém sente. Mas de algum modo tento dar a impressão do que sinto, mistura de várias espécies de eu e da rua alheia, que, porque a vejo, também, de um modo íntimo que não sei analisar, me pertence, faz parte de mim.
Quisera viver diverso em países distantes. Quisera morrer outro entre bandeiras desconhecidas. Quisera ser aclamado imperador em outras eras, melhores hoje porque não são de hoje, vistas em vislumbre e colorido, inéditas a esfinges. Quisera tudo quanto pode tornar ridículo o que sou, e porque torna ridículo o que sou. Quisera, quisera... Mas há sempre o sol quando o sol brilha e a noite quando a noite chega. Há sempre a mágoa quando a mágoa nos dói e o sonho quando o sonho nos embala. Há sempre o que há, e nunca o que deveria haver, não por ser melhor ou por ser pior, mas por ser outro. Há sempre..."
Bernardo Soares em o Livro do Desassossego
Saturday, October 21, 2006
Tuesday, October 17, 2006
"acalmar a raiva aflita da vertigem..."
Eu não compreendo estas vidas que se esgueiram entre a minha; estes apertos que me fazem o coração gelar. O tempo, escuro e chuvoso não é guerreiro como eu, e por isso detesto-o nesta minha distância crua, severa, inexplicável. É mais que uma simples falta de tudo o que faz parte de mim, é uma aprendizagem de que não preciso de aprender a viver longe. É toda aquela necessidade de descobrir o futuro por detrás das janelas do que já foi, das promessas que se fazem de um amanhã diferente.
É talvez a vivência que se dita imprevista, e não cessa em engasgar-se em meias palavras e acções que não se terminaram, em memórias que se tem, mais e mais a cada novo futuro que se alcança - e que hoje acredito que se tem mesmo de alcançar.
Não há forças dentro de mim, não há nada que tenha trazido que queira largar, e nada adicionei ao que pudesse proclamar. Não estou num vazio, porém não estou também em céu.
Como haver explicações perante os vazios, os fantasmas que me abominam a alma, aqueles que antes me abominavam os sonhos que tinha. A pura realidade é agoniante de sarcasmo, e eu como sou irónica baralho-me em linhas invisiveis de crescimento que detesto. Este querer permanecer pequenina é assim tão ingénuo?
É talvez a vivência que se dita imprevista, e não cessa em engasgar-se em meias palavras e acções que não se terminaram, em memórias que se tem, mais e mais a cada novo futuro que se alcança - e que hoje acredito que se tem mesmo de alcançar.
Não há forças dentro de mim, não há nada que tenha trazido que queira largar, e nada adicionei ao que pudesse proclamar. Não estou num vazio, porém não estou também em céu.
Como haver explicações perante os vazios, os fantasmas que me abominam a alma, aqueles que antes me abominavam os sonhos que tinha. A pura realidade é agoniante de sarcasmo, e eu como sou irónica baralho-me em linhas invisiveis de crescimento que detesto. Este querer permanecer pequenina é assim tão ingénuo?
Thursday, October 12, 2006
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