Thursday, November 30, 2006

un amour dans toi

É angustiante a maneira como sinto a tua falta, Lisboa. As tuas mil ruas, que reflectem em poças as mil caras de um inverno português, tanto como nomes de quem sonha mais alto que a lua. Sonhar, eu hoje sonho contigo.
Sei-te no entanto que te quero manter longe, quero ansiar os eléctricos, as alamedas, as ruelas que são tão pouco paralelas, aquelas que eu amo. Quero desejá-las um pouco mais do que já desejo agora.
Na verdade nem sempre gostei da tua anatomia; fazia-me suar demasiado, mas depois havia aquelas criaturas amarelas que recorriam em temporais de frio ou calor. Sempre que pudéssemos.
A memória de ti faz-me sorrir, não é como a memória de tantas outras coisas, ou de não tantas assim. A ausência dos teus caminhos, do comboio, do teu cheiro faz-me hoje dar erros gramaticais que nunca cometi, porque a minha precoce leitura de estudos adultos (adj. que atingiu a maturidade intelectual) encarregou-se de criar fantasmas em mim, cedo demais.
A tua calçada portuguesa que cabe em ti como eu não caibo na minha pele, entorpece-me os olhos, a boca, todos os meus poros que respiram esta inteligência patriota. O teu mar, o teu rio, tudo em ti eu amo.

Saturday, November 25, 2006

pausa sonhador

Li-te e descobri em mim saudades que matam o amor ao desconhecido. Sinto a falta dessa mágoa que te fazia arder os olhos na minha direcção, e pedir-me a consciência que na tua desilusão não sabias sentir. De vez em quando continuas a chamar em mim a vivência, em mensagens escritas que de pequenas leituras, são agora, por não haver cartas, pedaços do que sois e que me fazes lembrar. É triste sentir a falta dos teus abismos, daqueles em que tu te debruçavas cada vez que amavas um bocadinho mais. Não sabias evitar, como eu antes também não sabia. E eu sentia-me mesmo amiga, mesmo confidente sabes? Não útil, mas amada em amizade. E agora longe, na frieza dessas mensagens, duas em quatro meses feitos, já me sinto assim angustiada de necessidade. Assim como me sinto precisa dessa escuridão.
Por outro lado sou hoje melhor. Mas não é um melhoramento que toda a gente consegue ler. Por detrás do que se sente e do que se lê esconde-se a minha escuridão, o meu coração. E sei que é aí que está o meu ensinamento.
Não sou ninguém mais depois da partida. Amo mais, tenho mais perdições, mas sou eu, pequenina como sempre. E mais, tenho em mim, incoscientemente a prioridade daqueles que amo, e um pouco o esquecimento daqueles que me fiz esquecer ou que o coração bate e me odeiam na ridicularidade da minha partida, que parece eterna.
Eu sabia ser assim, o esquecimento, o silêncio marcam-se por detrás de não se sentir saudade. E já não sei quem mais sente a falta de mim, ou pelo menos pequenos vazios que mesmo retalhados não encaixam como uma alma portuguesa na cidade onde pertence. E não sei se dói, só observo.

Saturday, November 18, 2006

cry me a river

Não lhe perguntei, mas não precisei porque ela prontamente me disse que sentia falta mesmo daquelas coisas que custumava nem sequer gostar. E eu, como quem é cúmplice de tudo o que sente, sem querer deixar rasto de como estamos assim em mãos dadas de quem está na mesma situação escondi o achar ser mais que isso. Chego aqui a sentir a falta do que custumava doer e que agora, na ausência, nestes blocos vazios, se mantêm longe e em silêncio.
Já me disse, mil e uma vezes, mais vezes que alguém poderia achar aceitável num período tão pequeno de três meses que, e apesar de me ir repetir outra vez, não é uma questão de não encontrar respostas a tudo o que procuramos, ou custumávamos procurar, mas tentar com ou sem conformismo, encontrar conforto em cada slide do que passo, dia-a-dia. Esse, lá vai passando, e eu sem me aperceber olho o dia morrer como quem aceita um pedaço de crescimento em si. E eu, que custumava fazer tudo para que o tempo parasse de correr.
À minha maneira continuo a lutar para imortalizar esta meninice em mim, estas mãos branquinhas de Madalena arrependida, os abismos todos que não sei desenvacilhar em todos os erros que cometi, e que estranhamente não me fizeram arrepender. E Deus sabe que continuo crescer, e sabe como temo a morte, como para mim sempre foi tão difícil aceitá-la.
Lembro-me de há três meses temer o meu inglês; hoje temo nada mais que esta solidão que de portuguesa que é sempre eterna, fala agora todos os dialectos do mundo inteiro.