Quando estava lá tinha saudade, agora estou cá e tenho saudade. Sou tão feita de saudade em tudo o que sou, que tudo o que quero ser se vai concerteza afogar em saudade como eu me afogo agora mesmo, hoje, aqui no sofá da sala, com a telenovela a passar e a mãe no computador, e todas as estrelas embaciadas por um céu de Outubro gritam por ti, aí longe. A cresceres, como eu cresco também.
Uma saudade que é tão agreste como bonita, tão pesada como leve que nem uma nuvem no céu escuro de noite. Como eu agora, aliás. Outubro fez-se triste, hoje.
Tou exausta de não chorar, tou exausta de não viver e de suster a respiração para te poder ouvir. Mas mil e uma ondas nos separam, e um fosso sem fim é o que está entre nós. Não te posso tocar, nem ser tocada. "Tens saudades?". Não respondo. Sou saudade, e também eles são agora.
Mas tenho de responder, ou vou parecer despropositada. "Sim", mas escusavas de ter perguntado. A minha vivência atraiçoa-me e mostra-me isso em tudo o que sou, em todas as palavras, em todos os sorrisos, em todos os passos e movimentos. Até ao respirar eu sou saudade. Em tudo em mim. Não era preciso perguntares, o olhar bastava. Depois de tudo isto já não há amores que digo, porque só te consigo ver a ti. Porque não há outra saudade em mim.
E o pior? Voltar nunca vai chegar. E sem isso não há mais nada, portanto isto não vai nunca mudar. Uma vida inteira. Uma vida que não me merece. Não sem ti.
Tuesday, October 23, 2007
Wednesday, October 10, 2007
Ao mesmo tempo que este grito me aflora na garganta, e me faz querer guinchar, e bater em tudo, partir tudo, fazer um Império desabar e espezinhar nos jardins de tudo o que construí, ao mesmo tempo que tudo isso acabo por ficar apenas sentada. E o grito, que aflora na mesma, não é gritado, não sai, não há destruição à vista.
Ao mesmo tempo que preciso que todos saibam, sei que nem todos vão saber, tanto como ninguém vai descobrir.
Sinto tudo do pescoço para cima, e nos pulsos e em cima do umbigo. Fechar os olhos já não serve de nada, é pior, há visões que me assolam como se eu ainda hoje sentisse tudo o que senti. E sinto.
Os pêlos levantam-se, arrepiam-se de memórias que flangelam, que queimam a garganta, que tecem pesadelos que hoje respiram como se sempre tivessem feito parte de mim. É um choro preso, um daqueles que nunca mais acabam. E que nunca começam.
E passa sempre. Dói-me o peito, e a morte está em cima de mim.
Ao mesmo tempo que preciso que todos saibam, sei que nem todos vão saber, tanto como ninguém vai descobrir.
Sinto tudo do pescoço para cima, e nos pulsos e em cima do umbigo. Fechar os olhos já não serve de nada, é pior, há visões que me assolam como se eu ainda hoje sentisse tudo o que senti. E sinto.
Os pêlos levantam-se, arrepiam-se de memórias que flangelam, que queimam a garganta, que tecem pesadelos que hoje respiram como se sempre tivessem feito parte de mim. É um choro preso, um daqueles que nunca mais acabam. E que nunca começam.
E passa sempre. Dói-me o peito, e a morte está em cima de mim.
Thursday, October 04, 2007
Tecer
Um "You should wait 'til you get used to it" do outro lado da chamada baixa-me os olhos para a calçada e faz-me tropeçar em fraquezas tão inundadas em mim, mas que eu sempre consigo esquecer. A verdade é que quero provar que já não há nada que caber em mim aqui. Não há nem sequer aquela inércia que me fazia soprar desculpas para não sair do sofá, há antes uma robotização de mim numa rotina que até depois de apenas três semanas já me sua o couro de sofrimento e não-adaptação. Já não quero esperar.
Tenho fome, fome de mais. Não quero mais que isto. Mas não agora. Um dia sim, hoje quero tanto mais que o passo Português, que o canto do fado poisado na pele, nas pestanas, no olhar. Quero mais que ser Portuguesa aqui, quero mostrá-lo ao mundo e caminhar pelos meus sonhos, sem nunca deles me fartar. Porque são sonhos verdadeiros, de carne e osso, de fumo e nevoeiro, de cores e preto no branco. Mas são tantos, que preciso de começar agora.
Já não é o arranjar desculpas para ir. Já não preciso disso, já fui, já vim e apercebi-me de mundos maiores que explicam o subcosciente, o meu eu tão diferente, essas necessidades que de tão pessoais me afectam tanto. Mas querer ir, querer ser maior, abraçar o que tenho e o que quero ser. É isto agora, e o medo eterno grita-me uma solidão imensa. Mas sinto-me Portugal, de muralhas erguidas a lutar contra um continente inteiro em busca do reconhecimento e emancipação. Sinto-me mais ambiciosa. Mas e esta pequenez? Nunca, nunca me abandona.
Tenho fome, fome de mais. Não quero mais que isto. Mas não agora. Um dia sim, hoje quero tanto mais que o passo Português, que o canto do fado poisado na pele, nas pestanas, no olhar. Quero mais que ser Portuguesa aqui, quero mostrá-lo ao mundo e caminhar pelos meus sonhos, sem nunca deles me fartar. Porque são sonhos verdadeiros, de carne e osso, de fumo e nevoeiro, de cores e preto no branco. Mas são tantos, que preciso de começar agora.
Já não é o arranjar desculpas para ir. Já não preciso disso, já fui, já vim e apercebi-me de mundos maiores que explicam o subcosciente, o meu eu tão diferente, essas necessidades que de tão pessoais me afectam tanto. Mas querer ir, querer ser maior, abraçar o que tenho e o que quero ser. É isto agora, e o medo eterno grita-me uma solidão imensa. Mas sinto-me Portugal, de muralhas erguidas a lutar contra um continente inteiro em busca do reconhecimento e emancipação. Sinto-me mais ambiciosa. Mas e esta pequenez? Nunca, nunca me abandona.
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