Sunday, February 18, 2007

mãe suprema, mãe de deus

"No castelo, ponho um cotovelo. Em Alfama, descanso o olhar. E assim desfaz-se o novelo, De azul e mar. À ribeira enconsto a cabeça, A almofada, na cama do Tejo, Com lençois bordados à pressa Na cambraia de um beijo. Lisboa menina e moça, menina Da luz que meus olhos vêem tão pura. Teus seios são as colinas, varina. Pregão que me traz à porta, ternura. Cidade a ponto luz bordada, Toalha à beira mar estendida. Lisboa menina e moça, amada. Cidade mulher da minha vida. No terreiro eu passo por ti, Mas da graça eu vejo-te nua Quando um pombo te olha, sorri, És mulher da rua. E no bairro mais alto do sonho, Ponho o fado que soube inventar. Aguardente de vida e medronho Que me faz cantar. Lisboa menina e moça, menina Da luz que meus olhos vêem tão pura. Teus seios são as colinas, varina. Pregão que me traz à porta, ternura. Cidade a ponto luz bordada, Toalha à beira mar estendida. Lisboa menina e moça, amada. Cidade mulher da minha vida."


Todo este frio que sinto dentro de mim, o mesmo que me faz gelar as pontinhas dos dedos destas mãos branquinhas de madalena, não é senão toda a saudade que sinto por ti, Lisboa.

"Haja o que houver, eu estou aqui. Haja o que houver, espero por ti. Volta no vento, o meu amor. Volta depressa, por favor. Há quanto tempo já esqueci, Porque fiquei longe de ti. Cada momento é pior, Volta no vento por favor. Eu sei Quem és para mim. Haja o que houver, Espero por ti."

Tuesday, February 13, 2007

ela

Não sei o que escreva. Não era suposto vir e continuar a dar de mim. Depois há destes puxões de tudo aquilo que me é a mim eterno, aquela estúpida e insensata saudade que me trespassa o coração momentaneamente pura e constante. Desta vez, não sei mesmo o que escreva sem que me repita, esta minha meninice soletra-se "tempo que é tempo", e esse tempo magoa-me como sempre, quase sempre.
Leio sempre que posso prazeres da Lisboa menina e moça, ou de suspiros do mar que aqui me parece tão revoltamente distante, porque tenho sede de sal e saudade lusitana que nunca mais acaba.
Acho que ninguém sabe ser um ser português como eu. Ninguém consegue sentir tão angustiantemente na alma o que é amar realmente cada calçada, cada rua estreita de uma Alfama escondida do sol de julho ou do choro de abril. Ou a areia fina de uma vila que me viu crescer em reflexos das minhas irmãs, em felicidade suprema de uma alma que sempre percebeu demasiado do mundo, cedo demais. De mim que sempre fui de uma felicidade febril por tudo o que tive e tenho. Por nada do que perdi e por tudo o que sonho e ambiciono e sei poder alcançar, que posso tudo.
Porque ser Portuguesa é ser feliz, amar estar debaixo de um sol doirado, de um vento salgado que faz arder os olhos de saudade e a língua de gosto lusitano, de poder caminhar o mundo e querer sempre voltar. O ter saudade e sorrir porque é mesmo, mesmo bom poder dizer que pertenço aí. E quem me pergunta: "De onde vens?" poder dizer Portugal, e à ignorância de acharem ser no Médio Oriente poder afirmar esplenderosamente, "sim, dentro de mim".

Wednesday, February 07, 2007

começou com Camões, terminou - não

É quando leio coisas como essas, que o meu coração desata aos tropeções no que sentir, sentindo tudo ao mesmo no tempo numa confusão que me baralha as forças que me restam. Não que desate em agouros mais uma vez, ou naquelas tristezas muribundas que matavam tantos sorrisos, mas desaperto uma dor que me faz os olhos brilhar de vazio, e os ossos doer de saudade.
É uma falta constante, mas quando leio que posso assim ser um poucochinho lembrada, desata-me a doer o coração em distâncias mais uma vez. Eles aqui chamam "homesickness", eu chamo saudade. É quando mais sei ser Portuguesa, quando sinto essa saudade que me faz parar o tempo num retrato que nao penduro na parede mas em mim, nesta alma que envelheceu mais em 5 meses do que 5 anos poderiam envelhecer a minha pele. Que envelheceu também, neste inverno que não me cabe.
Tento ocupar a mente com outras coisas, prometo-te Mafalda. Mas sabes, às vezes é mesmo bom sentir toda esta saudade que me dói tanto. Mas que dói realmente, não é só poesia. É no entanto uma dor confortável, quente, escalda.
Mas, por outro lado não gosto de a sentir; traz mais perto a realidade, e depois surge a falta que tudo me faz. De tudo em ti, as tuas mãos. De tudo no papá e na mamã, nomes que criei nesta minha distância cruel (cruel pelo menos a mim), e do sorriso da Maria.
O tanto que tudo isso tenho em mim, naquelas proporções em que já confundimos o que nos caracteriza realmente, por o termos tanto em nós que pensamos que as mãos e os sorrisos já nos pertencem e não a quem amamos. Tanto, por ser tão impossívelmente surreal o quanto vos trago comigo.

E é mesmo boa esta ausência, que dói. É um escândalo aceitar assim a traiçoera muralha que deixa o olhar atravessar o horizonte, mas aceito. E depois só há horizonte, memória. Mas há futuro também, e ambição, e sonho. Voos rasantes, oportunidades de crescer e assim-assim tornar-me imortalmente pequenina.
A minha ambição é chegar aí; o meu sonho são vocês.

Thursday, February 01, 2007

deep in you

Escrevi, algures, que sem escuridao nao ha arte. Ou por assim dizer que sem abismos os artistas nao nascem. Sem a duvida nao ha tambem procura de respostas e por assim dizer novamente, aprendizagem.
Tenho saudades, demasiadas.
Saudade que bate no escuro e cega as asas que me fazem voar, tantas e tantas vezes. As vezes que me fazem transpirar, me fazem gritar de tonturas e desaconchegos. A mesma saudade que toma forma em cada segredo de mim, por detras da minha sombra no desabrigo do frio e da neve. Neve, que detesto. Nao me sauda como se eu fosse nova para ela, como eu mesmo depois de dias sem ver o esboco da estrada sempre a saudo como se a temesse - o ironico da novidade.

Sorrir, crescer sao para mim opostos. Por isso me considero a mim propria um paradoxo. Nao sou de reflexos, nao me encontro na escuridao em que se debruca a minha alma, ou mais abundantemente no esforco que o meu olhar faz para ver atraves desta luz que me cega. A minha felicidade e essa mesma, o desconforto que sinto por saber tanto de mim, por conhecer todos os meus limites e ainda assim saber-me interminavel de existencia. Sou mortal, e isso desilude-me. Mas perante o meu segredo, o mar, voces, tudo me espera como se nem tivesse partido.

E depois de tudo a gargalhada esta presa.
E o melhor de tudo e que parti realmente.
O melhor de tudo e saber ser Portuguesa.