Aprendi a não confiar mais. Tudo o que sou dou somente às poucas pessoas que um estado que descrimino agora, neste momento, sabe deslumbrar. Sei que a consciência plena das coisas que não se vêm é cegueira inconsciente, e por isso não pode acontecer. E se acontece, tem de ser erradicada imediatamente. Mas não o consigo fazer; não sei desfiar pensamentos em acções, não sei ser eu, sem ser verdadeira, e magoando-me, tento não confiar. Mas eu confio em vida, quando os passos ressoam nos ouvidos; e naqueles que não sabem ouvir, que se sentem na palma dos pés, o mesmo chão que se pisa. Há loucura na espera de um estado que a infância reteu? Há loucura nisso? Será que eu tão pouco me perco mais em divagações que são tão cépticas quanto certas, tão desesperadas como repentinas?
E sei que o não confiar mais é minha culpa. O ser humano é um animal maldoso. Nasceu para tentar ser feliz, e arrastar com toda essa tentativa a felicidade de todos os outros. Não porque queira magoar, mas porque é totalmente necessário para que a extrema felicidade, que nem existe, se tente alcançar. E eu, sem maldade em mim a não ser o ciúme de quem não me vê, a inveja que de pura não é rara em mim, nada mais de maldade tenho. E quem perde sou eu, porque na filosofia que canto isso significa que nem a felicidade extrema procuro. Talvez apenas o abrigo, e com ele o embalo.
Sunday, November 30, 2008
Thursday, November 20, 2008
será que dá para voltar ao nosso corpo pequenino? Aquela casa onde jogávamos á bola no terraço com as palmeiras, e os vitrais no hall de entrada. abre a porta, e vira na primeira à direita a seguir a cozinha. entra, senta-te um bocadinho comigo, vamos jogar mario. os dedos doiam, como éramos felizes, e tão pequenos.
faziamos parte uns dos outros, éramos irmãos em tudo o que queríamos ser. e ele, que quase nunca surgia, tinha a sua presença, porque no fundo éramos um só. e se vocês tinham saudade, eu tinha saudade.
e tenho saudade.
faziamos parte uns dos outros, éramos irmãos em tudo o que queríamos ser. e ele, que quase nunca surgia, tinha a sua presença, porque no fundo éramos um só. e se vocês tinham saudade, eu tinha saudade.
e tenho saudade.
Friday, November 14, 2008
"As observações e as vivências do solitário que só fala consigo próprio são simultaneamente mais indistintas e intensas do que as do homem social e os seus pensamentos são mais graves, mais fantasiosos e nunca sem uma coloração de melancolia. Imagens e impressões que outros poriam naturalmente de lado após um olhar, um sorriso, um comentário, ocupam-no mais do que é devido, tornam-se profundas no silêncio, ganham significado, transformam-se em acontecimento, aventura, emoção. A solidão cria o original, o belo ousado e estranho cria a poesia. Mas cria também o distorcido, o desproporcionado, o absurdo e o proibido."
Thomas Mann
Thomas Mann
Saturday, November 01, 2008
Estou serena. A contemplar tudo o que não passa, parece que há um manto de coisas a acontecer ainda. Parece que de perdição o mundo se afoga, e me arrasta com ele. Dói-me o corpo sem pressa; antevejo uma guerra. Um temporal que se avizinha e tem sabor azedo, como a chuva ácida.
Vejo as liberdades que os outros têm; não as anseio. Vejo as suas perdições, rio-me delas. Não fazem sentido, mas são poderosas, crucificadas em fé, em esperança, que todos tecem e não sabem cantar. Depois quando os desejos se tornam rotina, quando se alcança o destino escrito de antemão, vem a desilusão. Acho-me melhor; sei ver que nunca há contentamento, que a sabedoria nem sempre aquece a alma. Quase nunca.
Mas quando alguém alcança o que eu já quis alcançar, sem desejo apenas vontade, sorrio. Sei que sou melhor, porque me dou, me entrego, mas retorno. Sou difícil, porque sei lutar. Sou inconstante porque sou fantasiosa. Sou triste, porque sinto tudo, e a vida faz parte de mim. Por isso sou difícil, inconstante, fantasiosa e triste. Porque tenho vida, sei que me pertence. E que se não é eterna, cheira a eternidade, se não é mortal, eu já devia ter partido.
Por isso talvez seja vontade de contemplar. Talvez precise de uns dedos entrelaçados nos meus, e na pele a vontade de me ter de alguém. Mas isso sempre há.
Vejo as liberdades que os outros têm; não as anseio. Vejo as suas perdições, rio-me delas. Não fazem sentido, mas são poderosas, crucificadas em fé, em esperança, que todos tecem e não sabem cantar. Depois quando os desejos se tornam rotina, quando se alcança o destino escrito de antemão, vem a desilusão. Acho-me melhor; sei ver que nunca há contentamento, que a sabedoria nem sempre aquece a alma. Quase nunca.
Mas quando alguém alcança o que eu já quis alcançar, sem desejo apenas vontade, sorrio. Sei que sou melhor, porque me dou, me entrego, mas retorno. Sou difícil, porque sei lutar. Sou inconstante porque sou fantasiosa. Sou triste, porque sinto tudo, e a vida faz parte de mim. Por isso sou difícil, inconstante, fantasiosa e triste. Porque tenho vida, sei que me pertence. E que se não é eterna, cheira a eternidade, se não é mortal, eu já devia ter partido.
Por isso talvez seja vontade de contemplar. Talvez precise de uns dedos entrelaçados nos meus, e na pele a vontade de me ter de alguém. Mas isso sempre há.
Subscribe to:
Posts (Atom)