a morte é fugaz. tão fugaz como nada mais é fugaz. nem o suspiro mais fraco de todos é tão insólito como uma batida deixar de explodir, e com ela o corpo que se desprende de um fio, de uma aura, de uma imortalidade. é fugaz como o nevoeiro que não dura, como o rio que corre contra uma maré de escassos metros e de mil temperaturas, como o arco que espreita do céu e que chora cores à passagem desse suspiro que é a morte. a morte não é nada, e é tudo o que existe. porque não há vida, há morte constante. abomino a morte como não abomino nada mais, não quero morrer, aspiro a uma imortalidade. que seja fugaz! que seja o que ela quiser! mas que seja, porque nem tu me abominavas tanto, e acabaste por me abominar. porque não quero ser imortal sem estar do outro lado, mas não quero ter de me despedir de almas que me tocam, me acariciam me cativam como raposas num jardim de rosas e um príncipe que caiu do céu. porque detesto coisas fugazes, térpidas, detesto choros que não saem porque a saudade não bateu ainda. e as coisas que vão, que eu amo, e não voltam mais.
apenas grito o que os que perdem gritam também, mas perdendo pouco. secalhar tenho medo de morrer. tenho medo de morrer sim, nunca o escondi. sempre responderei mal a esse canto, mesmo que me enfeitiçe sempre, é um mistério que me abomina e fascina, como cara e coroa, como o naipe e a cor, ou tu e eu simplesmente. mas e quem sabe?, amanhã posso nem estar aqui, posso ser ave de rapina e assombrar-te nos teus sonhos de mim, ou de morte. mas hoje sou eu, assim com mãos brancas de madalena, sim sempre as mesmas, apenas com as unhas crescidas de solidão desenfreada e revolta aguda, que lateja no peito, na alma, em mim. porque eu te abomino, e abomino o que é fugaz. tão fugaz, como já disse, como nada mais é fugaz.
e eu abomino o que é fugaz.
Wednesday, January 23, 2008
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