Detesto esta vingança enclausurada; estar débil e frustrada, os espelhos serem monstros, e o meu gostar de mim ser sempre morno e pouco sincero. detesto esta preguiça moribunda, perra de sonhos acesos e falhados, que me leva às desculpas isoladas e pouco corajosas, onde eu nem me revejo, nem pinto, nem sou reflectida. Gosto quando ganho súbito ânimo de me atirar para a escuridão narcisista, emancipada no meu próprio canto triste, afinado, refinado. Sou no fundo uma pessoa feliz, num olhar entristecido, que não sabendo usar as armas que têm, se semeia aos pés da terra não lavrada. E o novo ano que germina, não me leva com ele, que tenho dor e saudade; que temo acima de tudo o pânico crescente dos fantasmas que vão cuidando de mim.
A sinceridade que guardo, repugnando a sua cruel mentira enraizada, é tão somente a fé que brota nisto que sou e porto. Mas tenho de ser mais, que o querer que rasga, rasgue também esta moleza disforme e desdentada da minha vontade. Eu sou absoluta, e absolutos são os meus sonhos. No entanto na mais crescente forma de vida, a minha é tão somente repleta de ternura. E a ternura, ainda que cale os maus tratos mais maliciosos, não salva ninguém das covas húmidas, dos medos sedentos, das mãos frias e olhares cabisbaixos. Sou no entanto tua, e vossa. E nisso encontro a chave para o portal de tudo o que sempre escrevi; a felicidade é um estado, viver é uma condição. Completam-se.
Wednesday, December 30, 2009
Tuesday, December 29, 2009
O ano que se assusta já, nas entranhas do tempo. É tão fácil escaldar sentimentos, deixá-los mornos aos pés dos sonhos destruídos, ausentes, adiados. E o novo que surge, é tão novo quanto o antigo o foi no início; e também este que vem irá saudar o novo, ou deixá-lo entregue a outros que o saudarão. Não tenho medo dessas chegadas, não me pesam a alma. Mas é um bom apressar de mudanças, de ganhos extraordinários de novas rotinas que se nos apegam o conforto. Há tanto que quero que mude, transitoriamente, e tanto que quero que se mantenha. Vou fugir às dores, deixá-las ficar, e tentar mudar-me para uma nova zona de autoconfiança, autocrença, autoreconstrução, autotudo. Mas não quero um piloto automático, quero ganhar coragem de fazer as minhas próprias viragens, ganhar a minha direcção. I see your true color, shining through.
Wednesday, December 23, 2009
O frio que ao chegar me congelou os ossos, e que entrou por mim como o vento mais gélido e repugnante, foi radicado pelo calor da goteira que adveio de te ver finalmente. as saudades feridas cansavam-me tanto, que julgo que a minha felicidade extrema era somente uma visão do futuro; a chegada ao quarto de um dia de trabalho, não era o descanso anterior a outro dia igual, mas era o penar que não cessava até voltar a ter as nossas mãochinhas, a nossa amizade selvagem, e a segurança infantil que plantámos em redor das guerras perdidas. trazia a expectativa dos presentes por abrir, da voz que reconhecer, os passos pesados, teus, a ecoar no vão da minha escada. e a familiaridade que já é ver-te contrastado com as paredes bejes da minha casa, com o chão por encerar. cessei de te procurar, para te ver em reflexo no olhar dos meus pais, e irmãs, por me saberem já tão tua, como deles.
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