Monday, July 26, 2010

E aos poucos sinto a morrer em mim aquela espécie de memórias às quais chamo memórias de ocasião. Aquelas que em certa altura aqueceram, mas onde hoje, no pensamento do passado, se encontram demasiadas falhas, demasiados calafrios para serem denominadas com saudades. A tristeza recai sequer nisso, de aos poucos as memórias se tornarem fungos luxuosos dos quais a multidão alheia se alimenta. A mesma multidão que no fundo os semeia. Aquela mesma multidão que em certos espectros temporais foi fantasma da verdade, relinchava meias mentiras à minha vida, e nela coloria metáforas vergonhosas de tanta miséria.

E aos poucos esse passado vai-se tornando num passado morto; a cor da mentira torna-se na certeza de que hoje, indubitavelmente menos sábia, contudo menos dormente, me torno conformada nas teorias que não tenho, aquelas que passo a vida a tentar derrotar.

É inutilmente fácil criar outros absolutos que não nós, é fácil lapidar ideais e torná-los numa benção. Como é fácil condenar, duvidar e, bem, matar.

Fui morta vezes sem conta pela mentiras dos outros, e hoje não sei se serei sequer a sombra do que os outros viram. Mas sei contudo que estou mais gorda do vão das coisas por engolir. Aquelas que me enchem os olhos de brilho, de fatalidades, de exaustão de viver a vida inteira.

Wednesday, July 21, 2010

Fecho-me na escuridão encriptada do abandono, da morte, da não-existência. Há vulgaridade nos sonhos que tenho, pois eles não são menos nem mais que os sonhos do mundo, e dos outros. Ser-se somente arquitecto dos próprios sonhos, enclausura de certa forma a alma. Com a cabeça sufocada em camas de dossel, os limites que se põe nas paisagens que a mente cria, estilhaçam a vontade de viver do sonho, e aos poucos a vontade de velar por ele. E assim, o querer, à sua semelhança perde o sentido, e estagna no longíquo do sonho e da sonolência.

A minha veneração da vida com timidez, é também fascínio pela morte. O sonho vem somente abalar a realidade devassa, estes passos dados em redor de escadotes em circos de portas mal fechadas. Sonhar tornou-se banal, na vertigem de uma sociedade que não sabe distinguir a força do sonho, e a força do poder. Para outros sonhar é perda de tempo; ler jornais, participar em obras de caridade, filantropismo, e rituais saudáveis fazem mais sentido. E em neles nada há de sonhos.

E em mim nada há mais que sonho, em tons pastel e creme dourado. Na minha própria tontura da realidade, quando acordo, sou somente a ilusão que o meu próprio sonho não realizado escolheu de mim. Só os sonhos perdidos, nunca deixam de ser sonhos.

Sunday, July 18, 2010

Aquelas ruas caiadas do pó que o sol derrama, e o sol queimado, a desculpar a indecência das sombras. Lembro-me do sabor do ar nas minhas pálpebras, a humidade meio cheia, meio vazia, e o bater terno do meu coração, por saber que apesar de não ser casa, marquei.

Há algo sobre egocentrismo em mim quando debato esta fúria saudosista nos confins da minha alma, há um crescente ardor nos olhos por sentir a mortalidade dentro das entranhas, o mesmo ardor que o meu físico contesta, e que me faz tossir argumentos de que a imbecilidade é ingrata, tanto quanto a fé ou o destino.

Saber que o dia pesa mais que a noite, pela constante mutação das rotinas humanas, devassas e anárquicas, é constrangedor no sentido em que algo me tira o sono, e que isso é literalmente humano. Não o digo porém por falta de fé no humano; talvez me desgrace saber que os créditos que tenho em argumentação impugnem permanentemente as minhas fés. Mas de noite o mundo dorme, e eu no meu noto que, aparte disso, os dias são iguais às noites, quase tão orgânicas quanto as rotinas, quantos as mutações, quanto o humano.

E vou tentando demonstrar ao meu próprio corpo que não sou se não mais do mesmo; o meu mundo parte-se em esferas ridículas, em rituais recortados, e sou sugada por um mesmo rol de diários semelhantes. Sou mortal, e isso enfraquece-me a alma. Mesmo depois de todos estes capítulos semi abertos, quase fechados, os meus sonhos escalam as minhas bossas, vão sendo sonhos para além das opções, das leituras, das escrituras. Mesmo depois do fim de algo, do passado irreparável, vem a morte, e vem o leito, no qual terei de me deitar, mesmo sem ter sono.