É isto. É esta sensação imperdível que a vida embala, e me enternece. Sensibilizada deixo-me arrastar nos contornos frios e latejantes, pegajosos de vida e da paixão da morte. Esta agonia que me embriaga, é sempre a mesma. O avesso da vida, brusco e transparente, traz sempre estes abismos, sempre os mesmos passados, não importa o quanto alguém me completa, ou quão feliz me sinta. O inverno que se esvanece não deixa alterar a tristeza de que o ser humano é fatalista, e assim fatalmente falível. E é triste, do fundo do meu ser terrificamente melancólico, que as batidas que o meu corpo martela, e que desenha a minha banda sonora, sejam assim desgastantes e saudosistas.
Terror este que é o estar assim, feliz, mas saber que no fundo de tudo serei sempre uma pessoa perseguida pelo meu coração tão cheio de vida, tão cheio de sabedoria triste. E que assim sendo terei sempre o olhar virado ao coração dos outros, aos gestos que vejo e me apaixonam, os estranhos que me emocionam, quando os observo e consigo vê-los tão fulgentes, num compasso mais lento. E é tão somente isso que me persegue. Este apreço tão grande de portar uma maldição assim. De sofrer com a vida dos outros, e de me saber de todos, de tal forma que nada chega para que consiga ser minha. E arde-me viver assim, e dói-me não saber ser outra. E é bom, porque sei que ao viver pelo coração, quem vive por outra coisa não sabe viver. E eu ao não saber viver sempre feliz, vivo acima da vida, e vivo, mesmo que na quietude, num raiar de sangue, de brilho e de luz.
Sou emocionalmente nítida. Os contornos severos da minha psicanálise tristonha, são para mim o sorriso de quem sabe mais. Nem imaginam o quanto isso me faz realmente sorrir.
Monday, January 18, 2010
Thursday, January 14, 2010
Isso, desenha o teu corpo no meu, através desse abraço cerrado, cerrado de si e cerrado de desejo. Contorna as tuas mãos nas minhas, delineia o corpo doente, teu, meu. Sorri; as covas que fazes no olhar cansado, penetrado de desilusões e expectativas, de surpresa e gratidão, são também elas minhas. Amo o teu olhar sorridente, não gargalhado. A paz que acode, já tão de dias sufocados e medrosos. Calados dos estilhaços das guerras travadas ao largo do coração dado. Tu sabes os meus sofrimentos, começas a entendê-los como ao teu próprio nascer, aos passos dados. Fazes-me renascer naquilo que antevi; és o meu cheiro a eternidade. Tocas-me e sinto-te a morrer comigo, ao meu lado, num compasso nosso. Que irás perder-te comigo, na longevidade, nos medos precoces e temporões, nas coragens que virão. E que são desmesuradas também. Deixa-me dizê-lo; não te perderás de mim. E o que temos não é cumplicidade, é entendimento das raízes, das veias; no fluxo sanguíneo que se sente no abraço que desenha o meu corpo no teu. E aquilo que me ensinas é que não há forma de saber se é certo, mas que quem não arrisca quedar, não voará. Te garanto que voo já.
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