Sunday, March 25, 2012
Nó na garganta. Temor agudo da solidão congelada, ou líquida, em mim ou em nós. Teimosia, já gasta, disforme, morna, da tua ausência em mim, da minha ausência nos outros, de mim nos mastros da vida, no leme da tormenta. Sempre o mesmo desgaste, sempre a vida serena a martelar-me nos olhos que cedem ao solo, que olham de lado, um lado dormente e cheio de falsa expectativa. Lágrimas, sede, abandono. Já não sei o que sinto, se sinto, se és tu e eu, ou eu e os outros, ou os outros sem mim. Ou eu sem ninguém. Sinto-me só, nesta falsa incompreensão, nesta inerte comiseração, nestes fatalismos. O fado que eu já deveria saber do princípio aos fins, sempre frios, sempre salgados. E eu sempre crua, sempre tão eu. E nunca serei outra senão eu.
Friday, March 16, 2012
A casa afunda-se sem pressas neste silêncio nada pusilânime. De vez em quando anda alguém lá em cima, ouvem-se os canos a torcer a sua valsa indiferente, seguindo longos caminhos. E eu aqui, atenta ao sangue que me atravessa, ao coração que bate sem a minha vontade. Lá fora a ilusão do dia canta as madrugadas que se esqueceram. Grita a vontade que em nada é minha, de que querendo ou não querendo a vida troça de mim e da minha paz. Esta paz mentirosa, nada súbtil que aflora nos livros já lidos e nas recordações já temidas. Haverá sempre o poeta calão e o poeta sincero que nos amedrontar e fazer florir prosas grosseiras, destiladas em cepticismo. Quem me diz que lá dentro, ao fundo, a porta que bateu na força do vento é se não mais uma quimera do dia-a-dia abrupto e vacilante? Procuro palavras mais crescidas de sentimento, as mesmas do português de antigamente, e não subsisto ao desconsolo. O meu corpo erguido será o mesmo que o meu cadáver, e o dia lá fora brotará novamente, com a minha alma tremente no meu corpo dormente, ou nas suas margens. O humo tragará a minha tristeza e bondade, e os tempos sulcarão o que resistirá da minha recordação. Dói-me viver para me abandonar, dói-me viver na doçura enternecida do amor mais fulminante, sorri-me viver na amargura da sabedoria e da verdade. Sou límpida na minha vontade e isso amolece-me os sonhos, mas aguça-me os sentidos, e sou feliz.
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