são momentos destes, pelo menos para mim, que nos fazem parar este correr atrás do tempo, como uma banalidade que vemos adquirida e que só a morte, que nós assinalamos sempre tão longe, poderá cortar o fio do provável.
são dias destes, como domingos de páscoa que estamos aqui, numa casa atarefada com a venda da casa de férias e com o encaixar nos sitios mais apertados dum armário de 9 metros ou um caixote cheio de papelada e coisas para escolher, que nos sentamos a ver o telejornal sem esperar massacres, desastres por ser páscoa e Deus olhar por nós. Mas acontecem na mesma, e acontecem mesmo com pessoas que não conhecemos mas que sentimos estarem tão perto de nós.
Mas depois o tempo passa, e passa e mais coisas chegam, o choque transforma-se na ferida sarada, a pontos crus que o tempo não descose, e já não se fala mais nisso, só se relembra como um desconforto desagradável, algo com que temos e temos vindo a aprender a lidar, a viver com.
A mim custa-me um bocado imaginar que um miudo de 22 anos, que representa uma personagem com 17, que eu estou acustumada a ver durante duas horas todos os dias, desapareça num domingo de páscoa, para sempre. Secalhar sim, é a impressão que faz devido a representar o papel que representa, representava, o nosso Dinomen. O facto de se vir a falar sobre ele durante as próximas duas semanas, e o tempo afogá-lo como uma memória enquanto que pensamos que ainda ontem ele deu uma entrevista para a revista Jovem ou para a Lux, e é isso que fica - registos, voz, representações, e para os mais próximos uma vida inteira. Não é fácil para mim, sendo piegas e nada forte, aceitar que seja a morte a única cena, o único travão aos nossos sonhos, isto amando a vida como amo. Não o conhecia, nunca o tinha visto, e talvez seja só o impacto da carga horária que os Morangos com Açúcar ocupam na emissão diária da tvi que me está a provocar este desconforto, este luto enorme por um miúdo que tinha a vida toda pela frente, como também tinham tantos miúdos que desaparecem todos os dias, e que nós nem nos passa pela cabeça os sorrisos e a felicidade que se perde neste mundo, porque há sempre mais que nascem, e há tanta gente que passa por nós, pela nossa vida que nos parecem sempre suficientes e que nos fazem esquecer, mesmo que só momentaneamente destes destroços.
Eu estou destroçada, admito. São os descuidos, as perdas e a falta de saída deste portugal pequenino e de um mundo tão grande, que não tem fim aos meus olhos. Porque são estas coisas que nós estamos habituados a só ver acontecer aos outros. E quando passa assim mais perto é que nos escancara os olhos e o coração treme ao mesmo tempo que as chamadas se enchem de notícias, e a dor verdadeira só entra no coração dos amigos, conhecidos e familia. Os espectadores só querem ver uma reportagem e imagens acompanhadas com uma música leve sobre o actor Francisco Adam para depois conseguirem esquecer e idolatrar um novo Dino que aparecer, porque aparece sempre um novo Dino.
Mas neste momento, mesmo que sendo uma tipica tuga de primeira, eu não consigo não ficar assim, em estado de choque, onde não consigo caber na minha própria pele, cheia de pena, cheia de medo desta morte próxima - neste conhecimento que às vezes tenho de não saber dar o valor que a minha vida merece, todas as oportunidades que detenho. É estranho, é triste.
Só uma salva de palmas para o pouco da vida dele que entrou nas nossas, por favor.
3 comments:
Não te conheço mas sou leitor assiduo do teu blog há já algum tempo...
Calculo que tenhas à volta de 17/18 anos, mas não podia deixar de dizer que tens um talento inato que não deves nunca descuidar: o da escrita.
"Os espectadores só querem ver uma reportagem e imagens acompanhadas com uma música leve sobre o actor Francisco Adam para depois conseguirem esquecer e idolatrar um novo Dino que aparecer, porque aparece sempre um novo Dino." - esta frase está particularmente genial... tens uma visão muito realista das coisas (isso é um elogio.), talvez até demais.
Fica bem
A morte trás sempre uma dor, sem duvida.
Mesmo sem o conhecer uma das coisas que pensei foi “Tinha uma vida pela frente”, pensei, também, que era apenas uns anos mais velho que eu.
Como é possível que antes de ter entrado no carro, tenha estado feliz a dar autógrafos? Fico com pena, obvio.
Mas, quero ver o outro lado, sinto-me obrigado a ver o outro lado.
Morreu no Domingo de Páscoa, no dia em que Jesus venceu a morte. As pessoas não morrem simplesmente, a morte sozinha não vale nada, o que vale é o que está para lá da morte, o que Ele nos preparou. Talvez Deus tenha querido festejar de uma maneira diferente a ressurreição de Jesus com o Francisco.
Por vezes os desígnios de Deus não se percebem, mas o desafio da Fé é isso mesmo, confiar n’Ele e saber que nas coisas más há um outro lado, a maioria das vezes pouco visível.
A morte do Francisco não foi em vão, ele já lá está em cima, talvez a rezar por nós.
Se está junto de Deus não sei nem me cabe saber, apenas sei que isto nos mostra o intolerável limite da morte - é preciso aprender a viver com ele, tomando consciência da nossa miséria e fragilidade, porque a qualquer hora podemos ser chamados a prestar contas a Deus.
Post a Comment