A noite vem já tão segura; com cheiro intenso á certeza que o manto escuro vai tapar tanto mais que apenas luz. Tudo sucumbe ao medo dessa escuridão; as coisas menos verdadeiras. Sou mais eu, pelo menos mais sem medo. E a noite vem, chega, acarinha a necessidade de estar mais perto de ti. Somos da noite, porque do dia não podemos ser. Se eu fosse o caminho que tropeço, tu me caminhasses sempre assim na pele, os teus dedos arrastados no meu braço, no meu pescoço, no meu braço outra vez. Mas não dura. É tudo tão soturnamente intenso que parece durar apenas um quarto de hora.
Imagino uma vida inteira, ao invés de uma só noite. Mas imagino apenas porque me forço a isso, nesta minha noite hoje sinceramente só, escura ainda, ainda mais escura sem ti. Há qualquer coisa ferida em nós, pouco tímida, mas inquieta. E este caminho que percorremos, nesta ausência física, mas explosão eminente, parecemos quase iguais, distantes, coniventes. E as palavras que são vultos de dia, a noite sabe arrancar, transformar, proclamar. Só a noite as sabe arrancar sem doer. E quando penso que a noite cai, e o dia se ergue sem medo, distante sim, mas agreste, cheio de força e calor que não é o meu, eu sei que talvez me dei demasiado para aquilo que a tua alma pode dar de volta. E mesmo que não o sinta logo, eu sei-o.
Persegue-te, ateia-te nesses teus sonhos perseguidos ao redor das promessas que a vida te fez, e não cumpriu. Larga apenas esse grito, faz-te feroz. Mais terno, mais bonito. Tens de te querer mais, em simplicidade. Persegue-te. E se iniciares uma perseguição total, não a abandones.
Não a abandones. Nós seremos cúmplices o resto da vida.
1 comment:
o maior erro é provavelmente tentar tirar da cabeça o que nao sai do coraçao...
Post a Comment