
Lembro-me quando em pequenina brincava com as minhas irmãs ao quarto escuro. Era estranho, tinha medo mas adorava a sensação - Conta até vinte! - Escondam-se vou fechar a luz. - clic!
Escuro intenso. Ainda via fios de luz, réstias de luz reflectidas nos olhos. Tropeçava milhares de vezes antes de chegar ao meu habitual refúgio. E quando lá chegava parava para escutar, e normalmente só ouvia pares de respirações pesadas das pessoas que estavam ali comigo nos quartos enormes da Ericeira. E de repente começava a ficar ansiosa, o coração começava desalmadamente a bater e abatia-se em mim uma enorme vontade de ir a casa de banho. O pânico fazia com que os meus ouvidos se apurassem. E quando era descoberta, quando não conseguia chegar a parede para não ser a próxima a contar, acabava por cair no chão e dar enormes gargalhadas de alívio. Por isso é que penso que nem sempre é do desconhecido que temos medo.
Hoje tenho 15 anos e encaro-me com esta brincadeira uma vez mais. Mas desta vez jogo sozinha. Aliás jogo com muita gente, mas a pessoa a contar até vinte é sempre a mesma. E apesar de todo aquele medo, de todo aquele pânico e ansiedade eu insisto em jogar porque sei que se for preciso, quando cair no chão, uma das pessoas que está lá dentro comigo no escuro mais perto do interruptor não hesitará em deixar o seu refúgio pronta a acender a luz com um sorriso espalhado pela cara, para que eu possa soltar uma gargalhada - clic!
Brincadeiras de criança.
2 comments:
Também jogava ao quarto escuro, também eu adorava e temia simultaneamente. Aquela sensação se nos escondermos de algo que nos quer apanhar, de por atras de alguma coisa e tentar passar despercebido. Acho que todos nós gostamos dessa sensação, desse temor, dessa ânsia desse perigo infantil. Funciona um boacdo como os filmes de terror, quato mais te assusta e mais te aterroriza e te poe em pânico, menos consegues deixar de o ver.
Quarto escuro? Era um habitué cá em casa. Só que eu nunca contava, punha-me sempre em cima do armário da minha irmã mais velha e ninguém me apanhava... e dizia sempre, qdo as pessoas desistiam de me procurar: "espera, espera, não ligues já a luz pra eu sair sem vocês verem onde eu estou". E, incrivelmente, eles esperavam que eu descesse do armário! (descesse é como quem diz... caísse... sim, porque mandava sempre grandes trambulhões... é que eu, em vez de ir com calma, em vez de me ir agarrando às bordas da parte de cima do armário, cheias de pó, agora que me lembro, não. Dizia: "lá vai bomba" e atirava-me para a cama, para o chão, para cima de um irmão. Rimou e tudo)
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